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Chinês acha mais pistas de misteriosos humanos ancestrais – 14/09/2026 – Ciência

This image shows a portrait of a juvenile female Denisovan based on a skeletal profile reconstructed from ancient DNA methylation maps.

Novas descobertas arqueológicas no sudoeste da China podem ajudar a dissipar um pouco as brumas de mistério em torno dos denisovanos, que estão entre os mais importantes e menos conhecidos ancestrais da humanidade moderna.

Os achados identificam áreas do esqueleto dessa espécie extinta que ainda não tinham sido desenterradas, trazem informações sobre os instrumentos de pedra e osso que costumavam usar e mostram que eles habitaram a região por pelo menos dezenas de milhares de anos, caçando animais de grande porte como cervos e búfalos.

A pesquisa descrevendo as descobertas foi publicada na prestigiosa revista científica Nature, em dois artigos separados. Um deles detalha as pistas de biologia molecular que permitiram que os fragmentos ósseos pudessem ser classificados como denisovanos, enquanto o outro reconstrói o ambiente em que os hominínios (membros do grupo mais próximo dos seres humanos) viviam a partir de 200 mil anos atrás e que tipo de tecnologia empregavam.

Apesar da riqueza de informações obtida nesses estudos e em outros trabalhos publicados recentemente, a espécie continua sem um nome científico formal em latim, ao contrário de Homo sapiens ou Homo erectus, por exemplo, o que é pouco comum nessa área de pesquisa.

“Ainda há certa discordância acerca do nome de espécie formal a ser atribuído aos denisovanos”, explicou à Folha o coordenador de um dos trabalhos, Qiaomei Fu, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da Academia Chinesa de Ciências. “Até que se chegue a um consenso, preferimos, no momento, classificá-los em ‘populações’ ou ‘linhagens’.”

Parte desse cuidado é uma consequência da própria descoberta original da espécie, que se deu na caverna de Denisova, na Sibéria. Além de alguns dentes, apenas um fragmento do dedo mindinho de uma criança do sexo feminino foi atribuído a essa população.

Em circunstâncias normais, indícios como esses jamais teriam permitido supor que se tratava de um grupo muito diferente de hominínios, mas a análise do DNA do dedo revelou que o indivíduo pertencia a uma linhagem bem diferente da que foi a principal antepassada dos seres humanos modernos.

Seu parentesco com os neandertais (Homo neanderthalensis), que então ocupavam boa parte da Eurásia, era relativamente mais próximo, mas ainda assim a separação entre eles também parecia ter ocorrido havia muito tempo.

O avanço das pesquisas mostrou que, a exemplo dos próprios neandertais, os denisovanos também tinham se miscigenado com o Homo sapiens conforme grupos da nossa espécie começaram a deixar a África, seu continente natal. Pessoas de origem asiática hoje carregam em torno de 1% ou menos de DNA denisovano, enquanto os povos nativos das atuais Austrália e Melanésia podem derivar até 5% de seu material genético dessa fonte.

Com o passar do tempo, novos fósseis atribuídos aos denisovanos foram aparecendo: uma mandíbula parcialmente preservada e uma costela no Tibete, outra mandíbula parcial encontrada no estreito de Taiwan (entre essa ilha e a China continental) e um crânio quase completo do nordeste da China.

Só é possível propor que esses cacos de fato correspondem à espécie misteriosa graças a análises proteômicas, ou seja, de proteínas que, apesar da passagem de dezenas de milhares de anos, ainda estão preservadas nos ossos e nos dentes dos hominínios.

O ideal seria, é claro, obter DNA dessas amostras, a exemplo do rascunho do genoma completo que foi possível sequenciar (grosso modo, “ler”) no caso do indivíduo da caverna de Denisova. Por ora, nenhum dos fósseis achados no Extremo Oriente permitiu isso, mas existe uma relação indireta e bem conhecida entre os aminoácidos —os componentes das proteínas— e as “letras” químicas de DNA.

A cada três “letras” do material genético costuma corresponder um aminoácido (embora haja, por exemplo, casos em que diferentes trios de letras são o código para o mesmo componente proteico). Com base nisso, é possível inferir que proteínas com determinada sequência de aminoácidos correspondem ao que se vê no DNA de um denisovano.

Foi isso o que fizeram também os autores dos novos estudos, que analisaram dentes, fragmentos cranianos e um pedaço do rádio (um dos ossos entre o pulso e o cotovelo) —esse osso em especial ainda não tinha sido encontrado em nenhum sítio arqueológico com ocupação pelos denisovanos. O material foi achado na caverna de Bianfu, que fica numa região que liga, de um lado, as montanhas tibetanas com o resto da China e, de outro, com as áreas tropicais do Sudeste Asiático.

Fragmentos de proteínas como o colágeno dos ossos e os componentes do esmalte e da dentina dos dentes comprovaram a associação com a espécie extinta. Já a estrutura do osso do braço revelou características que lembram tanto as do H. sapiens quanto as dos neandertais, o que não surpreende.

No segundo estudo, também assinado por Fu e por uma equipe internacional de colegas, os especialistas estimaram que a ocupação denisovana da região pode ter se estendido de 190 mil anos atrás até 70 mil anos antes do presente.

A área provavelmente incluía tanto florestas de coníferas (pinheiros) quanto áreas de estepe, com vegetação aberta, e uma relativa abundância de mamíferos de grande porte que eram caçados pelos denisovanos.

Os instrumentos de pedra encontrados em associação com os restos mortais dos hominínios eram simples e feitos com técnicas rápidas, assim como os preparados com osso. Era uma tecnologia, no geral, menos refinada do que a presente em sítios neandertais na Europa, por exemplo, mas parece ter sido o suficiente para a sobrevivência da linhagem na região por muito tempo.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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