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Como um show de Roberto Carlos em NY revela um rei latino que o Brasil não conhece | Eu &

Como um show de Roberto Carlos em NY revela um rei latino que o Brasil não conhece | Eu &

Todo brasileiro com uma televisão em casa conhece o ritual no ar quando chega dezembro. A liturgia anual, consolidada desde 1974, inclui um feixe de luz que recai sobre o microfone e o pedestal, diante dos quais se posiciona o terno branco. A imagem sempre precede os primeiros versos icônicos de “Emoções” (“Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo”). Shows de Roberto Carlos sempre seguem do início ao fim o mesmo protocolo artístico que consagrou o cantor, certo? Não se o público for o do Radio City Hall, mais tradicional casa de shows de Nova York, onde ele se apresentou na quinta-feira, 21, durante a abertura da nova turnê pelos Estados Unidos. O espetáculo, acompanhado pelo Valentiarevela um rei a que o brasileiro, em geral, não costuma ter acesso.

Em NY, a liturgia ainda se repete: o spotlight, o microfone no pedestal e o terno branco (com detalhes em azul claro na lapela do paletó, desta vez). O palco, por um acaso, é o mesmo do centenário espetáculo “The Rockettes”, uma das maiores tradições americanas de Natal, como os especiais de RC no Brasil. Quando ele começa a cantar, no entanto, a liturgia muda. A voz é a mesma, mas seu maior clássico foi traduzido: “Cuando estoy aquí, yo vivo este gran momento”. É “hablando” espanhol, e não português, que o rei conduz suas apresentações em território americano, agendadas até o fim deste mês.

Sim, as plateias de Roberto no exterior são formadas pela comunidade brasileira que migrou levando o carinho por ele na bagagem — são 500 mil nacionais nas imediações nova-iorquinas, por exemplo. É a comunidade hispânica, porém, a que mais se mobiliza para aplaudi-lo, sobretudo numa NY marcada pela forte presença latina. O destaque da última quinta-feira, segundo a produção do músico, era a audiência mexicana.

Das cinco músicas mais populares de Roberto Carlos no Spotify, três foram gravadas em espanhol. “Que Será de Ti”, que embalou o começo do show logo após “Emociones”, já foi executada mais de 59 milhões de vezes e faz mais sucesso na internet que sua equivalente brasileira (“Como vai você”). “Detalles”, a análoga de “Detalhes”, soma 120,3 milhões de plays. “El Gato Que Está Triste Y Azul”, com 179,5 milhões, sequer foi traduzida para português: Roberto a regravou em espanhol direto da original em italiano, numa faixa que é a sua segunda mais ouvida online. A canção fala da tristeza de perder um grande amor, como tantas outras do repertório romântico do artista. Foi uma das mais cantadas e aplaudidas da noite, em linha com a latinidade da plateia.

Essa diversidade de identidades era nítida desde a enorme fila para entrar no Radio City Hall, comparável à de clássicos da Broadway, todos lotados durante a semana de formaturas das principais universidades de NY. Para acolher falantes de espanhol e português, os agentes de segurança americanos da casa de shows aboliram a comunicação verbal: raio-X de bolsas e detecção de metais eram guiadas por mímicas, sem embaraços idiomáticos. Do lado de dentro, entre trajes festivos e brilhantes, o rótulo da cerveja mexicana Modelo (popular em Manhattan e arredores) era um dos mais vistos nas mãos dos presentes. Alguns, aliás, escolheram o show do rei para comemorar seus “cumpleaños” ou “birthdays”, uma demonstração do carinho pelo rei mundo afora, sobretudo entre latinos.

No palco, Roberto Carlos fez jus a tamanho apreço. Explicou bastidores das próprias canções, em espanhol. “Lady Laura”, por exemplo, ele disse que costumava cantar com alegria e amor, antes da morte da mãe, em 2010. Agora, sobrou “só o amor”. Antes de “Cóncavo y Convexo” (“Côncavo e Convexo”), RC confessou que a obra foi a forma que encontrou para cantar o sexo – despertando reações “calientes” da plateia. Ao convocar o público para cantar consigo, Roberto chegou a brincar que o alcance vocal dos presentes estava “fraquito”. Um cover de um tango argentino de sucesso (“El Dia Que Me Quieras”, de Carlos Gardel) também engrossou o coro de acenos do rei de volta aos hispânicos.

Ingressos para assistir Roberto Carlos em NY, à venda ainda na semana do evento, não saíram por menos de cem dólares e chegaram a ultrapassar o patamar de dois mil na moeda local. Mesmo assim, o show esgotou a capacidade do Radio City Hall para quase 6 mil pessoas, com apenas uma ou outra poltrona vaga. Na segunda fileira, a apresentadora Ana Maria Braga, de férias da TV, foi a convidada de honra de Roberto e da equipe dele. Glamour à altura das plateias repletas de notáveis que o anfitrião arregimenta em seu país natal.

Para o público brasileiro, Roberto dedicou implicitamente cinco músicas. “Detalles” foi a primeira em que o cantor migrou do espanhol para o português, sob uma salva de palmas. “A Distância” também foi cantada parcialmente no idioma original. Já “Calhambeque”, “Jesus Cristo” e “Aquarela do Brasil” foram executadas completamente em português — a última com o palco todo iluminado em verde e amarelo. O repertório ainda incluiu sucessos como “Ese Tipo Soy Yo” (“Esse Cara Sou Eu”), “Propuesta” (“Proposta”) e “Cama y Mesa” (“Cama e Mesa”) — esta última a mais ouvida de Roberto no Spotify, em português, com 222,1 milhões de streams.

Para finalizar os trabalhos, 144 rosas vermelhas e brancas foram distribuídas à plateia pelo próprio rei, em sintonia com a liturgia a que o público brasileiro se habituou. Uma delas, naturalmente, foi parar nas mãos de Ana Maria, a quem Roberto recebeu no camarim após o show. Diferentemente das apresentações no Brasil, no entanto, o momento florido foi seguido por uma “bis”, hábito do show business mundial que RC não cultiva. A exceção no exterior incluiu “Amada Amante” e “Un Million de Amigos” (“Um Milhão de Amigos”).

Passado o show, Roberto Carlos voou para Boston, onde se apresenta na noite de sábado (23). Depois, a agenda inclui Miami (28/5) e Orlando (30/5). Na estrada, o DNA brasileiro que consagrou Roberto ainda impede a tradução completa do maior sucesso “Emociones”, apesar da devoção hispânica e do afinco com que o artista trabalha para compensá-la. Como “saudades” é uma palavra tão brasileira que, até hoje, não encontrou-se tradução, fica assim uma das estrofes mais importantes do clássico: “Amigos yo gané, tristezas (e não “saudades”) yo senti partiendo”. Uma lembrança de que o Brasil será sempre casa para o rei e seus súditos.



Fonte ==> Exame

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