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Nosso herói anônimo da ciência: Friedrich Miescher, o homem que descobriu o DNA – 16/05/2026 – Ciência

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Seja em séries policiais de TV ou em sucessos de bilheteria do cinema sobre parques temáticos de dinossauros, o DNA é um elemento essencial da cultura popular moderna —sua estrutura de dupla hélice é uma das representações visuais mais icônicas da ciência.

No entanto, curiosamente, o jovem cientista suíço que descobriu o DNA foi praticamente esquecido.

Nascido na Basileia em 1844, Friedrich Miescher só iniciou sua carreira como pesquisador após desenvolver uma deficiência auditiva que o obrigou a abandonar os planos de se tornar médico, como seu pai. Trabalhando no castelo medieval com vista para a antiga cidade alemã de Tübingen (Alemanha), o objetivo de Miescher era grandioso: desvendar a natureza química da própria vida.

Mas seu ambiente de trabalho era bem diferente dos laboratórios de biologia molecular de hoje. A conversão das cozinhas do castelo em laboratórios pela Universidade de Tübingen parece ter envolvido pouco mais do que trocar panelas e frigideiras por provetas e alembicos usados para destilação.

Trabalhando no que ele comparava ao laboratório de um alquimista medieval, a primeira etapa da pesquisa de Miescher consistiu na tarefa desagradável de raspar pus de curativos cirúrgicos descartados, obtidos no hospital local.

O pus constituía uma fonte rica em glóbulos brancos, que eram muito mais fáceis de isolar e preparar do que as células provenientes de tecido humano sólido. Por isso, eram particularmente adequadas para analisar de que moléculas são compostas as células humanas.

Durante o inverno de 1868-1869, Miescher descobriu uma nova substância celular com propriedades diferentes de tudo o que se conhecia na época. Seu comportamento químico era significativamente diferente das proteínas, que já eram consideradas componentes estruturais e funcionais essenciais das células.

Ao contrário das proteínas, a substância de Miescher era rica no elemento fósforo. Ao observar que ela se encontrava quase exclusivamente no núcleo de cada célula, ele a chamou de “nucleína” —um termo que foi amplamente preservado em seu nome moderno de ácido desoxirribonucleico, ou DNA.

Pouco se sabia sobre as funções do núcleo celular na época, embora vários biólogos suspeitassem que ele fosse fundamental para o crescimento e a divisão celular. Miescher estava convencido de que a nucleína devia estar intimamente envolvida nesses processos.

Ele anunciou a descoberta do DNA em 1871 em um artigo intitulado “Sobre a composição química das células do pus”. Embora não parecesse (nem se lesse) como um livro de grande interesse, seus estudos sobre o pus viriam a se tornar um marco na história da ciência.

Quase um século depois, isso levou à descoberta premiada com o Nobel da estrutura em dupla hélice do DNA. A data desse artigo marcante de James Watson e Francis Crick é agora comemorada todos os anos em 25 de abril como o dia do DNA. No entanto, a contribuição de Miescher é amplamente desconhecida.

Do pus ao salmão

O retorno do cientista suíço à sua cidade natal em 1871 trouxe-lhe uma nova e rica fonte de nucleína, o que significava não precisar mais raspar pus de curativos velhos.

Todos os anos, os salmões nadam do Mar do Norte até seus locais de desova no curso superior do rio Reno, onde fica a cidade de Basileia. Em preparação para o acasalamento, os testículos dos salmões machos crescem enormemente e ficam repletos de DNA.

Ao acordar no frio e na escuridão de uma manhã de inverno, Miescher descia até as margens do Reno para pescar salmões e, em seguida, extraía o DNA deles em seu laboratório.

A intensidade com que Miescher conduzia suas pesquisas era impressionante. Um de seus alunos lembrou que, no dia do casamento de Miescher, os amigos tiveram que arrastá-lo para fora da bancada do laboratório para que ele fosse à igreja.

Seus compromissos aumentaram. Além de pesquisar o salmão do Reno para a indústria pesqueira local, Miescher trabalhou para o governo suíço com o objetivo de melhorar a alimentação dos detentos. E, após fundar o primeiro Instituto de Anatomia e Fisiologia de Basileia em 1885, surgiu a crescente carga administrativa de ser seu diretor.

Todos esses compromissos geraram uma crescente sensação de frustração por ele estar dedicando menos tempo ao DNA. Buscando na mitologia clássica imagens de futilidade e desespero, Miescher comparou-se a rolar a pedra de Sísifo morro acima.

Essas tensões afetaram sua saúde. Em 1890, após contrair tuberculose, ele passou a residir em um sanatório no resort alpino de Davos.

Uma segunda grande descoberta

Mas durante os últimos anos de sua vida ali, Miescher teve sua segunda grande descoberta. Citando as especulações de Charles Darwin sobre o mecanismo da hereditariedade, Miescher propôs que a variação nas características biológicas de todos os organismos vivos poderia surgir por meio da variação na estrutura física de uma grande molécula —que ele acreditava ser provavelmente uma proteína.

Limitado pelos conceitos e métodos de sua época, Miescher não estabeleceu a conexão de que a nucleína (DNA) era, na verdade, essa mesma molécula.

Ele morreu em 1895, aos 51 anos, sobrecarregado por uma dolorosa sensação de fracasso e oportunidades perdidas. “Nunca conhecerei a felicidade que pertence ao homem que viveu de acordo com sua posição de maneira harmoniosa, para satisfação de si mesmo e dos outros”, escreveu Miescher.

Mas seu antigo mentor, o ilustre fisiologista Carl Ludwig (1816-1895), estava mais confiante de que as realizações de seu protegido um dia seriam reconhecidas. ” Por mais que a célula venha a ser estudada e examinada nos séculos vindouros”, assegurou ele a Miescher enquanto este se encontrava no sanatório de Davos, “os descendentes agradecidos se lembrarão de você como o pesquisador pioneiro”.

A previsão de Ludwig acabou se revelando apenas parcialmente correta. As tecnologias baseadas no DNA transformaram o que entendemos sobre a vida e as doenças. No entanto, Miescher é raramente reconhecido como o cientista cujo trabalho pioneiro levou a elas.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original em inglês.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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